(Clarice Lispector)
9.12.09
(Clarice Lispector)
28.10.09
estou tão chateada e triste por outra pessoa que a dor parece minha. na verdade, a sensação é tão idêntica a que eu tive quando estava nesta situação que até assusta.
definitivamente, se isso não é amor, nada mais é na vida.
21.10.09
ele é um ser muito estranho. de todos os relacionamentos que tive, dos mais longos aos mais fugazes, ele é o primeiro que faz planos concretos comigo. não é aquela coisa de futuro do pretérito - é futuro do presente mesmo. quando ele fala, não é pra daqui um tempo, e sim pra ontem! dá um certo alívio ver alguém tão apressado quanto eu, rs.
enfim...
20.10.09
15.10.09
como dizia aquele ditado, a vida é uma caixinha de surpresas.
parece que foi ontem e realmente foi ontem que eu olhei pro meu coração e vi ele vazio. não era uma sensação ruim, só uma coisa de não pertencimento, de não apaixonamento, diria. eu não pensava no "vestido novo" (nossa, será que alguém que me lê hoje vai entender isso?), nem nos outros "vestidos" que apareceram na minha vida. eu estava livre, livre do amor e de todas as suas firiulas.
estava...
mas a vida traz coisas maravilhosas, do nada e jogam todas as nossas idéias e ideais pelo ralo.
tudo vira um grande caos de sentimentos. me sinto confortada, medrosa, excitada, tensa, relaxa, feliz, preocupada...
... mas resumindo tudo, estou apenas apaixonada.
10.10.09
1.10.09
Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor
Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não
Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor
- será que alguém vai aceitar?
- você aceitaria?
28.9.09
Fernando Pessoa
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...
Florbela Espanca
A pior solidão que existe é darmo-nos conta de que as pessoas são idiotas.
Gonzalo Torrente Ballester
Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.
Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.
Friedrich Nietzsche
Fernando Pessoa
David Saleeby
25.9.09
22.9.09
é uma dor, uma palpitação constante que começou há alguns dias e não passa. hoje, do nada, comecei a tremer. olhei para minha mão e ela se mexia freneticamente, como um vibrador ensandecido, como um velhinho com parkinson, como 355 boladão pela av. brasil afora.
é engraçado como a gente é idiota. digo a gente ser humano, essa alcunha que nos une e nos difere de todos os outros seres. criamos para nós mesmos modelos inatingíveis, figuras mágicas, simulacros absurdos de existência, totalmente desprovidos de sentido e razão.
e como a gente fala besteira. as famosas "mentiras sinceras". é foda, porque depois chega uma hora em que percebemos que por toda nossa vida fomos uma mentirinha sincera e inocente e burra. usamos escudos que nos protegem e nos afastam de nós mesmos.
então, chega um belo dia - e ele sempre chega - em que a verdade nua e crua pula no nosso colo e percebemos o quanto estávamos enganados. gestos, beijos, sorrisos, tudo nos engana. enganamos uns aos outros, "sem querer", "sem maldade", tentando desesperadamente nos proteger da selvageria que é o mundo.
sinto cada dia mais viver uma existência vazia e sem propósito. a vida corre solta e não encontro nada que me prende, nada que me faz pular da cadeira de alegria, nada que me faz verdadeiramente gozar. e todas as vezes em que acho que encontrei, é apenas mais uma realidade inventada.
19.9.09
- Você jura?
- Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim.
Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram.
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.
A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno.
Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,- para dizer alguma cousa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.
- Você?
- Eu mesmo.
- Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
- Se embaraçar, você desembaraça depois.
- Vamos ver.
(...)
9.9.09
Mas sei que eu tô no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô no meu caminho
Eu sou o que sou, porque eu vivo a minha maneira
Só sei que eu sinto que foi sempre assim minha vida inteira
Eu sei...
Não sei onde eu tô indo
Mas sei que eu tô no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava
pra bater uma bola
Eu pulava o muro com Zézinho no fundo do quintal da escola
Não sei onde eu tô indo
Mas sei que eu tô no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
Você esperando respostas, olhando pro espaço
E eu tão ocupado vivendo, eu não me pergunto, eu faço
Não sei onde eu tô indo
Mas sei que eu tô no meu caminho
Enquanto você me critica, eu tô meu caminho
E se você quiser contar comigo e melhor não me chamar pra jogar bola
Tô pulando o muro com o Zézinho no Fundo do quintal da escola
Eu tô...
[raul seixas - no fundo do quintal da escola]
1.9.09
há mais ou menos um mês comecei a procurar estágio. não dizem que o ano começa só depois que você faz aniversário? então, segui risca esse ditado e fui atrás de algo para me sentir mais útil, de preferência remunerado e que fosse importante para o futuro.
fiz umas 4 ou 5 entrevistas para lugares relevantes. passei para todos e foi um parto escolher qual a opção de melhor custo x benefício, não só para o presente mas como para o futuro. finalmente, depois de muito pensar e medir e equilibrar, escolhi.
preparei toda a documentação e fui armada de calma e paciência para a faculdade autorizar o estágio. vocês não tem noção de como a ufrj é burocrática, principalmente a psicologia. gastei exatos R$3,20 em xerox e encaminhei tudo que tinha que ser encaminhado.
esperei agilidade por partes deles, mas pelo menos encontrei boa vontade. mesmo que tudo não estivesse assinado, 99% dos problemas foram solucionados e eu poderia começar o meu estágio no dia 1º de setembro, sem muitos problemas.
os dias foram passando devagar e eu ansiosa para começar logo uma nova rotina, conhecer meus colegas de trabalho, ganhar meu dinheirinho ...
... e hoje eu acordo passando mal.
(frus.tra.ção)
sf.
1 Ação ou resultado de frustrar(-se)
2 Sentimento de insatisfação diante do fracasso de expectativas; DECEPÇÃO; DESAPONTAMENTO
3 Psi. Situação em que um desejo, ou impulso, ou plano de ação é temporária ou definitivamente impedido de realizar-se
[Pl.: -ções.]
[F.: Do lat. frustratio, onis.]
28.8.09
Rios são úmidos
Ácidos mancham
E drogas dão cãimbras.
Armas são ilegais
Nós escorregam
Gás tem mau cheiro
É melhor viver.
[Dorothy Parker]
....
certo, pedro?
24.8.09
Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã
Chorando, sorrindo, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar, explode coração...
(...)
6.8.09
planos para o futuro? não sei, talvez alguns rascunhos, algumas anotações perdidas aqui e ali. tal qual as migalhas de pão de joão e maria. tão úteis quanto. tão frágeis quanto...
falam que eu mudo de opinião muito rápido e muito fácil. deixo tudo pra trás no segundo que me apetece. mas, que culpa tenho se o mundo é um lugar tão interessante que seqüestra minha atenção a cada segundo em coisas novas?
bem, ainda são todas opções. cada uma com suas dores e delícias. todas com seus custos e benefícios. ônus e bônus.
seria tão mais fácil trocar uma mariola por uma barra de chocolate...
31.7.09
30.7.09

"O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aloísio Teixeira, considerando as atuais condições de propagação, no país, do vírus da Influenza A (H1N1); as recomendações do Ministério da Saúde e das secretarias Estadual e Municipal de Saúde do Rio de Janeiro; a necessidade de cooperação com as medidas voltadas para o enfrentamento da epidemia, algumas das quais já adotadas em vários e estados brasileiros, comunica o adiamento do início do segundo período letivo de 2009 na UFRJ para o próximo dia 17 de agosto. Foi anunciada também a constituição de um Grupo de Trabalho encarregado da elaboração de procedimentos destinados à orientação dos públicos interno e externo."
fonte: http://www.ufrj.br/detalha_noticia.php?codnoticia=8056
27.7.09
17.7.09
afinal de contas, só a putaria salva. aleluia!
beijosmeliga.
15.7.09
I have all the time in the world
To make you mine
It is written in the stars above
The gods decree
You'll be right here by my side
Right next to me
You can run but you cannot hide
Don't say you want me
Don't say you need me
Don't say you love me
It's understood
Don't say you're happy
Out there without me
I know you can't be
'cause it's no good
I'll be fine
I'll be waiting patiently
Until you see the signs
And come running to my open arms
When will you realise
Do we have to wait till our worlds collide
Open up your eyes
You can't turn back the tide
Don't say you want me
Don't say you need me
Don't say you love me
It's understood
Don't say you're happy
Out there without me
I know you can't be
'cause it's no good
I'm gonna take my time
I have all the time in the world
To make you mine
It is written in the stars above
[depeche mode - it's no good]
(tecla sap)
14.7.09
13.7.09
e o pior que nem tudo foi dito.
e não chegou-se a conclusão alguma.
e os sentimentos flutuaram durante essas horas.
mas hoje eu acordei com uma sensação boa. não é esperança, não é felicidade, não é alívio, não é nada.
é apenas paz.
(e agora, o que fazer com isso?)
11.7.09
Há um clube, se você quiser ir
You could meet somebody who really loves you
Você poderia conhecer alguém que realmente ame você
So you go, and you stand on your own
Então você vai, e encontra-se sozinho
And you leave on your own
E vai embora sozinho
And you go home, and you cry
Vai para casa, e chora
And you want to die
E deseja morrer
houve uma seqüência muito interessante ontem. primeiro uma música com o seguinte refrão: "tenha dó, não merecer o afago, nem de deus nem do diabo, quanto mais da mão que um dia eu dei pra ti". e o cloreto de sódio rolou solto. feliz de mim que tenho juba, pois ela oculta minha face vermelha e ridícula.
depois, não lembro muito bem se exatamente depois, veio: "people are stranger.... when you're a stranger, faces look ugly when you're alone. women seem wicked, when you're unwanted. streets are uneven, when you're down". e nunca me senti tão estranha. estranha a aquele mundo, a aquelas pessoas. um grande e absurda solidão.
no caminho, palavras e frases inteiras passaram na minha cabeça.... mas agora, descansada, com o álcool diluído no sangue, não sinto mais nada.
estou anestesiada até eu acordar desse coma.
(...)
(Hugh McLeod)
9.7.09
restam meus botões... já não sei mais o que é certo. e como vou saber o que eu devo fazer. que culpa tenho eu, me diga amigo meu. será que tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.
há muito me perdi entre mil filosofias. virei homem calado e até desconfiado. procuro andar direito e ter os pés no chão, mas certas coisas sempre me chamam atenção.
cá com meus botões... bolas eu não sou de ferro! paro pra pensar, mas não posso mudar. que culpa tenho eu, me diga amigo meu. será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.
se eu conheço alguém num encontro casual e tudo anda bem, num bate papo informal, uma noite quente sugere desfrutar. do meu terraço, a vista de frente pro mar, mas a noite é uma criança, delícias no café da manhã.
então o que fazer já não quero mais saber. se como alguma coisa que não devo comer. se tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.
será tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?
será tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?
será tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?
8.7.09
não sei mais o que dizer, só sei que no momento há apenas ódio no meu coração.
28.6.09
27.6.09
vindo pela brasil, agorinha mesmo, no meio da madrugada, senti que o mp3 queria me testar. ele queria me fazer pensar, me fazer olhar para a minha dor. mas eu tô fugindo, sem parar, sem pensar, seguindo a correnteza.
hoje eu sou pura passagem ao ato.
no meio da roda de conversa, acabei soltando eu tinha vivido o grande-amor-da-minha-vida, mas que acabei abrindo mão disso em nome da minha liberdade.
falei e quando me ouvi falar, a coisa fez um sentido que antes nunca tinha feito. gostaria mesmo de estar errada, mas é uma certeza que me inunda, é como se por toda minha vida eu fosse pensar isso.
- ah, pra que pressa... esse não será o "the big one" mesmo. esse bonde já passou e eu pedi pra descer.
mas a esperança é a última que morre. insistirei e procurarei um novo grande amor. quero me sentir inundada de amor, volúpia e paixão. mesmo que isso sempre traga uma dose de sofrimento.
...
..
.
será realmente viável uma teoria de um amor único? um grande amor, um amor necessário (pelas palavras de sartre e beauvoir), enquanto todos os outros, mesmo que satisfatórios, fossem apenas contingentes?
23.6.09
(Anaïs Nin)
21.6.09
comentando num blog sobre como a questão do aborto é tratada, no brasil, com uma diferença grande de valor quando foi a mulher que "escolheu dar" ou foi a "estuprada", tive um insight.
olhando o discurso dos pró-vida, ou seja, das pessoas que são contra o aborto - teoricamente sobre qualquer circustância, afinal, este seria um assassinato -, é muito comum vermos uma desvalorização moral da mulher quando é esta que escolhe como, quando e com quem ter o sexo. frases do tipo "ela que resolver dar, agora que agüente a conseqüência!" é deveras comum. tão comum que sempre quer dizer algo mais.
frases do mesmo tipo não são vistas quando a mulher é estuprada (a não se que, além de pró-vida, o desgramado ainda seja a favor da teoria que a mulher "provoca" um estupro) ou quando o feto tem algum problema causado por doenças "não controláveis" (afinal, se a doença do bebê é causada por algum tipo de comportamento da mãe - fumo, álcool, drogas em geral - o discurso muda). nestes casos, a mulher tem o respaldo não só legal, quando muitas das vezes moral para abortar.
percebam o quão sutil é a diferença entre os dois casos e como uma avalanche de outras razões está por trás desse discurso. antes de expôr a minha opinião, vou dar mais um exemplo, que foi o que dei no comentário do blog: no caso de doenças graves como o câncer e a AIDS.
vemos novamente o discurso do "coitadinho". a pessoa que tem câncer não escolhe ter câncer - e a palavra "escolha" é tão ridícula e cheia de significados... como se uma pessoas "escolhe-se" ter alguma doença, enfim - ele surge como algo externo, algo que vem de fora e acomete o sujeito.
no caso da AIDS é diferente. alguém que tem o vírus do HIV escolheu ter essa doença a partir do momento em que "não se cuidou", ou seja, a partir do momento em que teve participação e, logo, culpa nisso. com isso, este perde a possibilidade de ser digno de pena, afinal, se sofre, é por culpa única e exclusiva dele.
então, o que uniriam dois exemplos aparentemente tão distintos dentro de um mesmo insight? a gozofobia.
a idéia da gozofobia - um medo de ter prazer - me acompanha a algum tempo e está muito interligada com o um medo oculto do "ser realmente feliz" que nos constituiria. não falarei disso exatamente neste momento, vou mais explanar sobre como surgiria a "fobia". talvez acabe até usando alguns termos mais psicanalíticos para explicar, mas tentarei ser o mais coloquial possível.
nos exemplos acima vemos que a capacidade empática de se consternar com o sofrimento alheio tem um pré-requisito interessante: o grau de responsabilidade de que esta pessoa teve do seu sofrer. quando menos a responsabilidade, mais o indivíduo é digno de pena. vemos isso claramente quando somos abordados por quem pede esmolas na rua - das crianças temos pena, pois são inocentes frente a pobreza; dos adultos temos asco e mandamos ir trabalhar.
mas, mais além do que a responsabilidade, outro dado interessante que percebo é sobre o objeto de escolha do indivíduo. quando a escolha envolve uma primazia do gozo, todo o processo decisório é ignorado e julga-se apenas pelos atos em si. toda a escolha perde o sentido, pois a pessoa buscou apenas o seu prazer, "ignorando" as conseqüências dos seus atos.
acontece que esse pensamento é totalmente equivocado e encoberto de discriminações. por isso, quando vemos uma mulher que fez sexo pois quis e, por um azar ou ainda falta de planejamento real, acabou grávida e escolhendo por um aborto, ela é taxada dos piores impropérios possível. no fundo, uma única mensagem: ela é uma puta. uma puta que escolheu seu prazer antes de medir e remedir as conseqüências de seus atos, jogando esta responsabilidade para um "pobre ser que ainda nem nasceu".
a questão não é julgar se o que ela faz é correto ou não: o que estou querendo dizer é que, antes de querer saber os motivos real que levaram a escolha, há o pré-julgamento de que ela é uma puta, pois escolheu gozar. simples assim.
da mesma forma acontece com o aidético: provavelmente ele é um promíscuo e/ou viciado e/ou homossexual. logo, em todas essas possibilidades, escolheu o seu prazer, então pode ser julgado como irresponsável pelos seus atos, porque escolher o seu gozo é sempre uma razão irresponsável.
mas por que irresponsável? por que outro indivíduo ter prazer causa tanta ojeriza nas pessoas, ao ponto de legitimizar um pré-julgamento sem nenhum embasamento verídico? a resposta me parece simples: o prazer incomoda.
freud, num primeiro momento da psicanálise, formulou uma teoria muito interessante sobre essa questão. seriamos regidos por um princípio do prazer, e com isso o nosso aparato psíquico trabalharia sempre buscando ter prazer (diminuir a tensão) e evitar o desprazer (fazer com que a tensão não se elevasse). porém, na medida em que o bebê cresce, ele percebe que o mundo é hostil e que ele não poderá ter prazer sempre na hora que quiser. com isso, desenvolveríamos um princípio de realidade, onde aprenderíamos a suportar a dor e adiar a gratificação. somente conseguimos trabalhar, não fazer xixi pelo chão da casa, nem estuprar as pessoas na rua (ok, não todos) pois estamos imerso nesse princípio.
vermos outras pessoas escolhendo o prazer nos causa inveja e indignação. é como se pensássemos "porra, eu tô aqui me privando do meu prazer a contragosto, porque o mundo me exige isso, e vem esse safado e joga na minha cara o quanto ele teve prazer quando quiser? ah, tem mais é que sofrer mesmo, vagabundo!".
a inveja é um sentimento humano, todos sofremos deste mal. porém a coisa está tomando um grau absurdo. qualquer escolha fora do "padrão de submissão" é vista como inaceitável e como uma afronta ao nosso próprio princípio de realidade. grupos se unem contra isso, os meios de comunicação legitimizam este ataque ao prazer, pessoas desejam queimar as outras na fogueira. é a este quadro que eu dou o nome de gozofobia: ter realmente prazer é absurdo, humano que é humano nasceu para sofrer e você não pode simplesmente recusar a carregar sua cruz.
acredito que vocês agora devem estar pensando na mesma coisa que pensei quando formulei esta hipótese: mas e a nossa sociedade do espetáculo, do sucesso, do prazer e da felicidade? o movimento não é justamente o contrário, o mundo nos implora para que gozemos?
sim e não. sim, é verdade que temos esse movimento de "seja feliz agora, compre isso!" fomentado principalmente pelo capitalismo e a sociedade de consumo. mas, ao mesmo tempo, não somos burros: sabemos que ter prazer sempre e ainda por cima responder ao "princípio de realidade" é impossível. eles são incongruentes, unir os dois numa coisa só é um paradoxo. aceitamos a verdade que se ser realmente feliz é impossível e de que nossas escolhas são muito restritivas, tamanha as exigências do outro. há toda uma dificuldade de assumir os nossos desejos, devido ao preço que o mundo irá cobrar de nós.
com isso, quando vemos uma situação onde um indivíduo teoricamente mandou a realidade ir catar coquinho e escolheu o seu prazer, condenamos. condenamos não porque achamos errado, mas sim porque queríamos estar no mesmo lugar, queríamos ser livres como ele foi.
bem, isso é só um rascunho do que eu queria dizer. acredito que muitas outras variáveis podem ser adicionadas, como no caso do aborto da própria condição feminina e da sexualidade. mas acho que só como esboço já dá para ter idéia de quando eu falar sobre uma tal de gozofobia aqui.


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